Feb
9
A HABITAÇÃO OUTRA, de Ramiro Torres
Febreiro 9, 2008 | 1 Comment
A HABITAÇÃO OUTRA
Ao Pedro e à Estefania, ourives violetas.
Pérolas lavradas no coração
Acodem à queimadura trazida
Aos dedos por este relâmpago,
Longe de tudo, sangrante a vida
Fora do tempo, passadas as
Rotas às ilhas presentes em redor.
Desconhecer aqui as minhas roupas
É o meu dever: não tenho pátria
Senão for este espelho aberto,
Com linhas de fuga ao começo
De um canto a se confundir por
Toda a parte com um habitar outro.
R. T. - 01-2008
chuzame - Ago
29
Saudade 9, mais un número da fraternidade
Agosto 29, 2007 | 2 Comments
Nestes días chegou polo correo ordinario, agora case extraordinario, o novo número da revista Saudade, esa revista portuguesa dirixida e redixida por amigos que muito aprezamos. Entre portugueses, brasileiros, españois e gregos, para alén de Xosé Lois García, un habitual da publicación, tres galegos colaboradores d' O levantador de minas participamos neste número. Eis os nosos poemas:
AUTORRETRATO
De existir o vento
levaría o cabelo longo sobre os ombros.
De existir a chuvia
as bágoas derivarían por unha face tersa.
De existir os ósos
seguiría as túas pegadas pola terra
e no movemento
o meu corpo acharía unha posición exacta.
Algo está a faltar e non lle atopo nome.
Como designar un arrecendo cálido
de palmas simétricas.
De existir o tempo
dedicaría a cantar a vida enteira.
E aínda agora me pregunto
canto frío son capaz de atesourar.
Tati Mancebo
CORPO TRANSFORMADO
Ao Nacho Baamonde, pelo seu Ígnis.
Ao Levantador de Minas.
Sábio e inocente. obscuro ainda para
Este caminhar entre ruas de outro tempo,
Na cidade em que ninguém nasce,
Estou pronto para abrir a vida ao meio,
E navegar dentro dela à procura do que
Ainda está por se queimar na minha boca.
Serei, por fim, o teu amante sereno,
Como o vinho a se derramar pelo corpo,
Dentro e fora do mapa infinito em que
Chega a minha fome a se facer poema,
Ou casa para a minha mudança, precisa,
Em olho multiplicado sobre o universo.
Ramiro Torres
Ó CORPO QUE ME FOSTE ENTREGUE POR UM CORPO DORIDO
Ó corpo que me foste entregue
por um corpo dorido,
só es terra, lágrimas e sangue
que alimentam um grão de milho.
Hás de fundar-te em mim como ruína
que minha alma sepulte,
e nada queiras ser desde esse dia
senão a mala de mais uma viagem.
Então dançarei com as pedras minhas
em círculos vagos, hierofanias
ocultas restabelecerão
nas prisões tavernas
nos betões flores acessas.
Corpo que a dor trazes
de todas as partes do mundo,
portarás às costas a verdade avulsa,
farol de amor sobre uma torre de carne.
Uma brisa nova tocará tua pele
de animal renascido,
teus bigodes felinos vibrarão
no amanhecer dos sentidos
que um novo mundo percebem
transmutados, humanos,
para sempre de tristeza feridos.
À espera —sentinela perpétua—
do pranto mercurial aguardarei o sinal
que me há-de transportar
sobre a terra e o mar
—criança sorridente—
sob o sol, adormecido.
Alfredo Ferreiro
chuzame - Mai
20
Poema de Ramiro Torres
Maio 20, 2007 | 1 Comment
Amo o mapa em que perder
As velhas orientações, caminho da
Cidade oculta sob o seu nome.
De ali é que saem ao encontro
As naves perdidas entre o meu corpo,
Com esta cálida voz da pedra branca
Em que nasce o meu destino, devolto.
Ouço o seu compasso em minhas pupilas:
O pó afastado da minha vista, e aparecida
Já a fenda em que viverei, longe,
Não há nada a deixar aqui, salvo a cegueira.
2007.
chuzame - Mar
16
O fogo inexplorado: o ensaio poético universal desde aqui
Marzo 16, 2007 | 1 Comment
Ao fio do último post de Alfredo Ferreiro aproveito para reivindicar os poucos livros publicados na Galiza que se achegaram ao feito poético desde uma ampla perspectiva, partilhando as leituras e conhecimentos que os seus autores têm. Em concreto vêm-me à memória O sol de Homero, de Xavier Seoane; Hai suficiente infinito, feito com o pintor Antón Patiño, e As bandeiras do corsario, de Ramiro Fonte.
O primeiro livro é um notável achegamento às diferentes perspectivas desde as que compreender o acto poético, deixando sempre claro que se trata de uma actividade essencialmente livre e libertadora. É destacável o diálogo com diferentes vozes que intercalam exemplos e experiências no decurso aberto pelo autor, e ainda que quiçá botemos em falta maiores aportações de outros poetas e tradições literárias, é inegável a riqueza de conhecimentos amostrada, e o pouso de um prévio trabalho reflexivo que abrolha por toda a obra.
O segundo, anterior no tempo e a meio caminho entre ensaio e manifesto, transparece, através do trabalho comum de poesia e pintura, uma convincente reivindicação da capacidade regenerativa da liberdade integral do ser humano neste mutilado(r) tempo que nos toca viver. Um discurso cheio de invocações a ampliar a nossa percepção com o infinito presente na arte, entendida como lugar preciso de cruzamento e fecundação com a Vida.
E não quero deixar de mencionar o interessante trabalho de Ramiro Fonte, “As bandeiras do corsario”, onde, de mão do autor eumês, chegamos à voz de mais de uma dezena de poetas universais do século XX, desde Pessoa até Derek Walcott. Livro único até o de agora na Galiza no seu conteúdo e estrutura, faz uma viagem por estes autores repassando algumas das suas chaves poéticas e vitais, sendo um relevante guia de aproximação para quem queira conhecer uma parte da grande poesia desta época. Também, como o primeiro livro, achamos em falta outras vozes, mas tem-nos, na nossa particular biografia leitora, achegado a geografias estéticas alheias ao nosso conhecimento, o qual é sempre de agradecer.
É isto último o que quero destacar como importante, e como possível tema a debater: os trabalhos referentes à poesia de toda a parte são, ainda, muito escassos na Galiza. Semelha um tanto contraditório que tendo uma relevante cantidade de poetas e estéticas actuantes aqui tenhamos tão poucos achegamentos (ainda) ao que se escreve e faz lá fora, o que redunda numa potencialmente excessiva auto-referencialidade que paira muitas vezes sobre nós.
E acho também preocupante que quem estiver a abrir o seu corpo e mente (dito isto em termos “ocidentais”, noutras visões chamaríamo-lo coração) nesta arte não tem, quase, referências de autores mais maduros e com maior formação estética e intelectual, independentemente dos seus princípios e logros literários, que podem ser partilhados ou não (por exemplo, para mim o livro de Ramiro Fonte é sem dúvida o mais interessante da sua criação, literária ou ensaística), e que sempre podem ajudar no caminho da descoberta que fazemos cada um de nós.
Quero fazer, pois, uma clara defesa da ampliação permanente dos horizontes, tanto estéticos como do interior da nossa condição humana, na perspectiva de fazermo-nos seres libertados dispostos a iluminar o coração da Terra com a força que nos outorga o conhecimento do que nos habita. E para isso precisamos de todas as energias existentes em todo tempo e lugar, para que nos ajudem neste trabalho de desvendamento que chamamos criação, ou Amor, como melhor gostemos.
chuzame - Feb
2
Aldo Pellegrini (1903-1973)
Febreiro 2, 2007 | 2 Comments
Aldo Pellegrini (Buenos Aires 1903-1973), grande poeta e ensaísta mui pouco conhecido cá na Europa, propõe-nos um exercício de libertação do ser humano através do fogo primeiro do poema, como janela para a respiração no enclaustrado século XX que lhe tocou viver, e que ainda manifesta muitas das suas lacras (algumas acrescentadas) nos dias de hoje.
A sua obra expõe a necessidade, inadiável, de convergir a nossa existência com os espaços privilegiados de participação na Vida, face a quaisquer limitações. Há na sua proposta um exemplo claro da necessidade de libertar o furibundo poder subterrâneo que habita em nós: contrário a qualquer opressão sobre a realidade inegável da poesia, ou o que é o mesmo para ele, da parte mais alta do ser humano.
Em palavras suas:
“Abierto el camino de la libertad por la poesía, se establece automáticamente su acción subversiva. La poesía se convierte entonces en instrumento de lucha en pro de una condición humana en consonancia con las aspiraciones totales del hombre. Ceder a la exigencia de la poesía significa romper las ataduras creadas por el mundo cerrado de lo convencional.”
Esta concepção não remete, porém, a uma visão reducionista da poesia como meio de intervenção estritamente social, esquecendo a tensão própria do texto poético para virá-lo dependente de uma ideologia. É, como nos diz ele, uma autêntica viagem de (re)conhecimento:
“La libertad vive en la poesía misma, en su manera de expandirse sin trabas, en su poder explosivo. Está implícita en el acto de la creación, en ese modo de surgir de las zonas del espíritu donde reina la insumisión, donde es libre en todas sus dimensiones. (…) Allí se establece el vínculo real con el mundo a través de la única vía libre que lleva al universo todo. La poesía tiene allí su imperio, y allí están las fuentes de la imaginación creadora que participa con las potencias del amor en la construcción del ser auténtico.”
Estamos ante uma chamada infatigável para nos levantar da limitação, da presença constante das máscaras impostas à nossa vontade de libertação. Avisa-nos da relevância de continuarmos a procura, talvez necessariamente solitária, desse caminho iniciático de fazer aparecer o sol na Terra, como plantejava não há muito um levantador da palavra entre nós.
O nosso coração faminto da verdade reconhece na obra de Aldo Pellegrini um espaço onde demorarmo-nos no nosso caminho, sem final nem princípio, como uma estrela caída desde a noite fecunda do surrealismo sobre as nossas mãos eternas.
chuzame - Dec
8
Ramiro Torres, novo colaborador d’O levantador de minas
Decembro 8, 2006 | 4 Comments
Desfruten a maxia deste inspirado poema de Ramiro Torres quen, eventualmente, a partir de agora colaborará neste blogue.
Espelho no profundo:
Afirmo-me nos teus braços
De espuma e silêncio.
Sigo a tua voz,
Grávida a minha percepção
Na alegria do teu andar, aqui.
Conheço a multiplicação
Da tua luz entre as mãos,
Ardida a cicatriz do tempo.
Avanço entre moradas caídas,
A celebrar a minha lenta conversão
Em garrafa enchida pelo teu cantar.
chuzame -




