Archive for category Ramiro Torres

“Uma poalha de astros ainda inacabada…”, por Ramiro Torres

Para o Xoán Abeleira, mago das libertações.

Uma poalha de astros ainda inacabada
Cai em cada músculo da alma, vindo
A sua pequena fogueira habitadora
Sussurrar a leve ilimitação da cidade
Que nos leva à ingravidez do poema.
No sonho irrepetível de sermos universo
Andamos, plenos de obscuros saberes,
Sonâmbulos e inocentes na condição
Plenamente humana de nascermos fogo
Sem possessões, só explosão iluminada.
Aceitarmos assim a desnudez primigénia
É o caminho vorazmente atingido no ser
Em nós iniciando o seu trabalho imanente.

Janeiro de 2010

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Sobre a necessidade de plataformas conjuntas

Percebe-se agora mais que nunca a necessidade de derivar o trabalho cultural e artístico em plataformas conjuntas que impulsem a criação desde perspectivas horizontais, somando todas as aportações que cada quem necessita fazer, e, portanto, alheias, no possível, a poderes económicos e/ou políticos.
Talvez foi preciso ter claro que as prioridades da maioria destes últimos grupos estão, como mínimo, dessinteresadas, quando não são claramente contrárias, do trabalho criativo propriamente dito, para começar a perceber que a energia própria da arte deve gerar, na medida do (im)possível, espaços e âmbitos para uma ósmose e intercâmbio fluído com toda a realidade, visando uma consolidação dos discursos artísticos, poliédricos por natureza, como uma riqueza inesgotável para cada ser humano e, por consequência, do conjunto social.
Semelha chegada a hora, pois, de serem criadas as medidas e ritmos precisas para o percurso, sem depender de ninguém a quem dever favores, sem aguardar passivamente por mudanças ou ventos mais ou menos propícios em níveis que não sejam o Trabalho irrenunciavelmente próprio, voltado, sem escusas, para diante, atirando longe os medos para retomar em nossas mãos o presente e o futuro, intensamente magnetizados por tudo o que, desde sempre, nos pertence inalienavelmente: a construção da luz no nosso ser, íntimo e universal a um tempo, (sub)vertendo na realidade os inumeráveis caminhos existentes para a manifestação da cultura, da arte, do ilimitado.
Neste sentido, há que felicitar-se por propostas várias que estão surgindo, como as que se têm comentado neste mesmo blog, ou como a que em Cambre botam a andar, sob o formoso nome de Arteu, Xacobe Meléndrez e Inma Doval, e que neste mês decidiram levar a vários estabelecimentos vídeos, fotografias e gravuras, na convição de encontrar novos lugares para a interação artística.

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Última oportunidade para a exposição Áncora do alén

O trabalho colectivo de gravuras e poemas em homenagem ao grande Urbano Lugris, Áncora no alén, segue o seu caminho: permancerá deste 12 de Dezembro até princípios de Janeiro na Fundação do Museu de Artes da Gravura, em Artes, Ribeira. Para chegar, assim. Esta é a última exposição pública prevista das obras.

Junto endereço e horários do Museu, para quem queira ir: tTelefone: 981.871.342; endereço: Artes Lugar de Outeiro s/n. 15969 Ribeira. A Coruña.

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Entre as mãos uma serpente branca…, por Ramiro Torres

Para o Pedro, na habitação do imenso.

Para o Dúbi e o Rubén, propiciadores de caminhos.

Entre as mãos uma serpente branca
Acolhe a percepção olvidada, para
Deter-nos na cópula da memória e
A lava que ocupa a cidade, com a
Cabeça do tempo explodida, nua
E veraz a sua palavra derramada.

Não é nosso este espaço dormido:
A distância ao pequeno sol ouveia
No coração, segrega a voz inteira
Dos animais despossuidos; na rede
Lançada desde a casa inapreensível,
Atrapadora, a palpitação do eterno.

Ramiro Torres. Outubro de 2009

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«Tacto da calor súbita…», por Ramiro Torres

Para Ricardo Morente, na desconhecida família comum.
Para o François e a Dulce, procuradores de mundos.

Tacto da calor súbita trazendo pedaços de lua
Sobre a mesa ardente com frutos desaparecidos:
Ouves o mistério para deixar em casa o medo
E apanhar nas mãos a louca voz que o amor,
Tarântula azul, outorga para desnudares a alma
No cimo deste bosque sem caminhos onde só
Tu sabes andar, meu animal adormecido que
Murmuras à Noite o nome primeiro do poema.

R. T. Mesoiro, Maio de 2009.

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Áncora no alén ~ 14 gravados e dous poemas para Lugrís, por Ramiro Torres

Em 2008 um grupo de artistas plásticos (Branda, Carmen Cierto, Inma Doval, Karlom López, Manoel Bonabal, Manuel Silvestre, o próprio Nacho Baamonde, Nando Lestón, Omar Kessel, Roberto Castro, Rubén Fenice, Sebas Anxo, Sindo Cerviño e Víctor Espiñeira) decidiram fazer uma homenagem ao pintor Urbano Lugris, projecto ao que se uniram com dous poemas Ramiro Torres e com uma abordagem crítica Carlos Lafuente.

Os trabalhos focaram-se desde a mais estrita liberdade de cada pessoa, dialogando com o que Lugris supunha para cada um deles, a partir da comum admiração da sua obra, ainda hoje em grande medida desconhecida.

O resultado é este conjunto de gravados e poemas reunidos sob o nome de “Áncora no alén”, que permaneceu exposta até o 26 de Março na Asociación Cultural Alexandre Bóveda (Rua Olmos, 16-18, 1º, A Corunha), tendo previsto percorrer mais espaços por todo o país (finalizará em Novembro-Dezembro no Muséu do Gravado de Ribeira).

Só há vinte exemplares das obras de todos os participantes, dos que quatro estão ainda à venda para quem estiver interessado (podem contactar com Nacho Baamonde, no telefone 646-411624).

Aqui reproduzimos o texto introdutório conjunto:

“Cem anos depois, no mesmo lugar onde nasceu o grande mestre Urbano Lugris, seguimos aprendendo das formas que nos legou, como frutos do enorme trabalho de libertação em que deixou o melhor da sua existência.
Abordamos as nossas obras reconhecendo a sua figura, face à adulação dos diversos poderes, prelúdio da sua fossilização, como um maravilhoso exemplo de transformação da realidade, por escura que for, em rede de caminhos para o reino da Liberdade, exercitando assim a parte mais necessária da condição humana, quer dizer, universal.
Desde as nossas diversas moradas saudamo-lo como um indagador do Mistério que, protegendo-se com o humor, nos traslada a um presente eterno onde partilharmos a criação como uma maneira privilegiada de comunicar-se com a Vida, através dessa âncora que une todas as idades e lugares num mesmo ponto luminoso.
Por isso nos declaramos seguidores seus, desde diferentes perspectivas que nos permitem trabalhar nessa mesma linha de intensificação do conhecimento, acreditando, como ele, na permanente recriação do mundo de todas as maneiras possíveis.
Aqui e agora reclamamos a necessária actualidade da visão poética, ou o que é o mesmo, radicalmente vibrante de Urbano Lugris, quem segue a lavrar na mina transparente do nosso ser esta ampliação permanente do horizonte até o infinito, rotundamente Real.

Novembro de 2008.”

Acompanhado das obras dos artistas plásticos:

E dos poemas de Ramiro Torres:

A âncora baixa em nós
Até a câmara esquecida:
Subitamente respiram
Os animais ali debuxados
Na sua desnudez primeira.
Trazem à nossa superfície
Os olhos sábios e verazes,
As suas pequenas árvores
Nascendo sobre as cabeças,
Como a luz serena da noite
Em que volvemos, sempre,
Ao início do canto da união.

O olho multiplica-se em rotas infinitas,
Abre o seu diamante lavrado na noite,
Entre o respirar dos oceanos agochados em si:
Ouve o seu próprio cair sobre as cidades
A abrir portas desenhadas no seu abismo.
Toda a força guardada em séculos vem segurar
Os movimentos das mãos, no seu habitar
Outro tempo assinalador de ilhas intactas.
Levas-nos, perdendo o peso das nossas
Vidas sobre as areias encantadas,
Ao espaço esculpindo-se transparente,
Chamando-nos à luz emergida ante ti.

Reunir todos estes trabalhos foi um esforço frutífero, que permitiu comprovar a vigência da figura de Lugris na actualidade, esparegida em diferentes perspectivas criadoras que acham no seu exemplo uma das chaves magnéticas com que abrir novos espaços para a imaginação e a Liberdade, caminhos mais precisos ainda nestes tempos em que estamos.

Ramiro Torres

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Áncora no alén ~ 14 gravados e dous poemas para Lugrís

Áncora do alén_exposición

Amigas e amigos:
Convido-vos à exposição colectiva de 14 gravados e 2 poemas dedicados à figura de Urbano Lugris que se inaugura na Corunha às 20 horas do dia 26 deste mes de Fevereiro, na Associação Cultural Alexandre Bóveda (rua Olmos, 16-18, 1º), e que permanecerá ali até o 26 de Março (o horário de visita, salvo sábados e domingos, é de 16.30 a 20.30 horas). Depois irá ao Museu do Gravado de Ribeira, estando ainda sem confirmar as seguintes exposições noutros lugares de Galiza.
Trata-se de uma iniciativa de artistas gráficos da Corunha em homenagem ao grande pintor, sem vinculação com qualquer entidade pública ou privada, que decidimos dialogar com a sua obra desde perspectivas diversas e actuais, colaborando eu com dous poemas.
Aguardo que vos seja a visita tão prazenteira como o foi a minha primeira experiência neste tipo de colaborações.
Saúde e abraços oceânicos.

Ramiro Torres

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A Casa recorda-se em tuas vértebras, de Ramiro Torres

A Casa recorda-se em tuas vértebras:
Move-te em direção a si, eterna a sua
Vide a abater os muros incendiados no
Adentro que evapora a distância à luz.

Vem desterrar-te ao início, alimentando
O coração desprendido de todo refúgio,
Anelante desta populosa floração do nada
Vertido no corpo: nascente da tua procura.

Ramiro Torres (Janeiro de 2009)

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“Sentes a mutação do corpo…”, um poema de Ramiro Torres

Ao Pedro Casteleiro, no início da Vida.

Sentes a mutação do corpo
Em estrela munidora, anterior
Ao nome que te cai por fora,
Incapaz de conter a irrupção
Do teu habitar na realidade
Desbordada, acostumando
Ainda os olhos ao que deixam
De não ver. Aqui, longe.

Ramiro Torres (outubro de 2008)

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Nos teus olhos sem penumbra…, por Ramiro Torres

Nos teus olhos sem penumbra
Cabem as asas do presente, aberta
A casa às ruas, nascentes, em redor.
Decifras as palavras que criam o tempo
Mentres esqueces o teu nome na areia
E as mãos acendem as luzes precisas.
Lugar da transparência, o corpo é
Cruzamento de caminhos, nó desta
Viagem para a tua conversão em
Estrela primeira grávida de universo.

R. T. 07-2008.

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