Xull
26
Pax iberica
Xullo 26, 2007 | 11 Comments

“Jesus disse:
Sem dúvida, os homens pensam
que vim lançar a paz sobre o mundo,
e não sabem
que vim lançar divisões sobre a terra,
fogo, espada, guerra.
Porque haverá cinco numa casa
e três estarão contra dous,
e dous contra três,
o pai contra o filho,
o filho contra o pai,
e manter-se-ão de pé, enquanto são unificados.”
Evangelho Gnóstico de São Tomé,
utilizado polos priscilianistas galegos.
Com duplo sentido titulo este texto, ao meio da presente polémica, aliás recorrente na história de Espanha e Portugal (ou seja da Hespanha, nome geográfico sinónimo da Ibéria até à idade moderna). Porque agora, como dantes, a guerra volta a ser entre as gentes deste urdume singular que os romanos chamaram assim, creio que por querer dizer Terra de Coelhos, ou qualquer cousa semelhante, que até isso parece muito discutido.
Ponha paz então, se algum poder tiver, minha mão, entre os insignes professores e escritores de quem eu tanto aprendi e o não menos ilustre José Saramago, que foste a Canárias por paz e saramagos te deram. Ponha paz, se alguém valorar o sentido da paz ainda, se alguém depois e ao meio de tantas guerras lembrar ainda que tão-só na paz se faz a cultura. E uma vez que o silêncio de canhões tão dignamente indignados reinar, por um momento talvez possamos escuitar que aqui ninguém, ao meu juízo, está a dizer qualquer barbaridade; mas todos, acho humildemente, estão parcialmente desinformados e, ouso julgar, polo menos parcialmente, bem-intencionados.
chuzame - Xull
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Poesía indispensábel na rede
Xullo 14, 2007 | 1 Comment
O número 34 da revista dixital sèrieAlfa, con responsabilidade de Joan Navarro, ofrécenos baixo o título Una llum del nord [ Quatre poetes gallecs ] textos de catro poetas galegos: Olalla Cociña, Pedro Casteleiro, Modesto Fraga e Xavier Vásquez Freire. Do noso colaborador Pedro Casteleiro seleccionamos este polidísimo poema:
A casa vazia
Desde sempre me lembro da nossa casa vazia,
vejo-a ali, onde a pintei em pequeno, nossa
casa na enorme solidão da memória.
Nossa casa cheia de vozes enterradas nas paredes,
nossa casa chorando ao norte dançando ao sul
como uma mulher que de repente vivesse
todas as idades
desde a manhã
até ao roxo entardecer do sangue.
Desde sempre desejei conhecer a nossa casa de vinho
desde sempre, no centro da colina, cantei à nossa casa,
nossa casa vazia no centro da memória.
Os poemas nesta revista ofrécense en varias linguas, para alén da orixinal. As versións francesas dos poemas de Pedro Casteleiro son de François Davó.
chuzame - Xan
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A César o que é de César (uma breve aclaração jurídico-pública), por Pedro Casteleiro
Xaneiro 27, 2007 | 4 Comments
A João e Mário
Atribui-se ao rei Salomão aquele exemplar juízo pelo qual, ante difícil dilema, é outorgada a custódia de um menino à mãe que estava disposta a perdê-lo antes de o ver morto -em troca de àquela que o queria mesmo aos bocados. Estas dicotomias apresentam-se com excessiva frequência quando tratamos juridicamente com o sentimento do amor à pátria, pulso legítmo e pábulo de guerras conceptuais (e infelizmente de outros tipos). E, como diz o jurista galego e mestre Bernardo Sánchez Pavón, sem uma prévia delimitação, mais ou menos exacta, daquilo que de substantivo se pretende que haja [nos conceitos, arremessados de bando a bando]. Tentarei delimitar pois alguns conceitos, sob a intensa luz de um dos nossos lúcidos avós, paradoxal e eficazmente contemporâneo.
Há uns meses encerrou-se na Andaluzia o congresso dedicado a quem consideramos hoje como um dos pais da Economia moderna, o tunesino de origem andaluza Ibn Khaldun -coicidindo com o sexto centenário da sua morte. Vulto sobressaliente também no terreno jurídico, Ibn Khaldun (1332-1406) foi testemunha directa dos acontecimentos políticos nos últimos reinos de Taifas. Para ele o alicerce do Estado acha-se –conforme assinala o politólogo Jean Touchard- ante tudo no espírito de corpo de um clã, de uma tribo, de um povo. Sem o espírito de corpo que anima um povo não é possível estabelecer-se o Estado. Os valores ideológicos ou religiosos que impregnarem o Califado, o Estado, vêm depois e funcionam como elemento coesionador ad extra do corpo social. Portanto, para Ibn Khaldun, o Estado é instituído, com o apoio do povo, para servir ao bem geral. Nunca ao contrário.
À luz da sua obra, parece claro que se considerarmos que o bem jurídico superior for a permanência de uma qualquer estrutura estatal, como imperativo categórico, mesmo contra a vontade dos governados, estaríamos a preterir o fim supremo do Estado, que é precisamente o de servir às necessidades e à vontade do corpo social, regularmente manifestas e expressas. O bem jurídico-público prioritário, para Ibn Khaldun, era pois o de servir a uma realidade prévia e soberana que é a do povo, e à garantia desse bem estão orientadas as estruturas do Estado, colocado sob a vigilância da sociedade.
Mas, se me permitirem, quereria deprender outras aplicações práticas da lição de Ibn Khaldun. Julgo que para ele a nação é –mais do que qualquer outra cousa- em última instância extensão do núcleo familiar. E da vontade popular depende a estrutura e a legitimidade do Estado, que não pode ser imposta nem reforçada por uma vontade oposta àquela do corpo social.
Conforme à nossa tradição constitucionalista ocidental, mesmo desde a Declaração dos Direitos do Bom Povo da Virgínia, a finalidade suprema do Estado não é a da autopreservação do Estado. A finalidade principal dos Poderes Públicos visa à conservação de uma dada estabilidade social que permite ao indivíduo e aos grupos desenvolverem-se livre e plenamente ou, na linguagem de clara inspiração maçónica dos velhos legisladores norte-americanos: a utilidade fundamental do Estado radica em garantir o direito à procura da felicidade. Não em conseguir tal fim para os indivíduos, mas em dispor as condições que possibilitem esse trabalho individual. Amam à pátria, como diria Salomão, e parafraseando a Samuel Johnson, não os canalhas que usam o patriotismo como último refúgio mas aqueles que fazem do patriotismo uma virtude civil: a de procurar a sua própria felicidade em harmonia com a do vizinho, sem prejuízo da sua língua, ideologia, raça ou religião.
chuzame - Dec
24
Conto de Natal, por Pedro Casteleiro
Decembro 24, 2006 | 5 Comments
Talvez devia dizer adivinha: adivinha de Natal. Vejamos. Será que o leitor pode averiguar de que divindade estou a falar... se escrevo que se trata de um menino divino, filho de uma virgem e nascido numa gruta, no dia 25 de Dezembro, segundo a tradição acalentado por um vaca e um burro, que foi descoberto e adorado primeiramente por uns pastores, e recebe presentes, ouro e essências; e que anos depois terá uma paixão em que levará uma pesada carga, em cujo transporte cairá várias vezes, terminando tudo com um sacrifício sangrento. Bem, agrego novas pistas, falamos de um culto de origem oriental, concreta e parcialmente sírio-palestinense, que alcança seu auge no século I da nossa era na cidade de Roma, mas também ao longo de todo o Império, e –digo mais- que o seu culto se celebrava com jantares de amizade em que os adeptos comiam pão e bebiam vinho, sendo seu dia sagrado o domingo. Pronto, também direi que o sacrifício desta personalidade divina, chamada de Salvador ou Bom Pastor pelos seus adoradores, era uma acção redentora que lavava os pecados pessoais de quem se iniciava, muitas vezes com um baptismo, na sua misteriosa doutrina.
Nesta altura, prezado leitor, já sabe que falo da divindade cujo nascimento era celebrado em Roma no dia 25 de Dezembro, antes de que a Igreja Cristã trasladasse a essa data a festa do Natal, confessadamente para aproveitar a piedade já instalada à volta do nosso enigmático encoberto: o deus Mitra, o Sol Invencível. Mas não se assuste, não é o único que tinha uma biografia semelhante já que em toda a bacia do mediterrâneo o arquétipo de jovem redentor à maneira mitraica estendia seu culto e mistério sob múltiplos nomes e é Mithra Sol Invictus apenas um deles, fruto todavia da mistura entre o deus irânio Mitra e uma antiga deidade palestinense, como antes adiantava. Mas, por outro lado, a biografia atribuída a Mitra é parcialmente polémica, seus cultos estavam rodeados de confidencialidade e não é possível determinar a direcção exacta do fluxo de influências biográficas entre Cristo e Mitra, sob qualquer dos seus nomes. Acrescento, pelo seu interesse, que um sincretismo posterior sobre o sincrético Mitra, o culto ao deus Sol, chega a ser religião oficial romana e que esse é o culto favorito do Imperador Constantino, padroeiro do cristianismo, quem vela por achegar ao catolicismo elementos de seu culto antes e durante o singular concílio de Niceia –a que preside!- depois do qual vem a ser decretada a proibição da religião solar mitraica, já no 391, sob Teodósio, ficando o novo cristianismo como único sincretismo fortalecedor da unidade política imperial.
Não obstante, há quem diz que ainda mais do que o mitraísmo e derivados o verdadeiro competidor da Igreja naqueles momentos era o Gnosticismo. Em qualquer caso parece que tanto um quanto o outro foram influências e inimigos sérios para as aspirações de uma parte dos dirigentes do cristianismo da altura. E isso me conduz a clarificar minha intenção aqui, que não é em absoluto a de fazer qualquer tipo de alegato anti-eclesiástico nem cousa que se parecer. Mas chamar a atenção para uma tese, a das origens do cristianismo segundo o matemático e filósofo René Guénon, quem a princípios do século XX escrevia que achava claro que o cristianismo original nada tinha a ver com o posteriormente oficializado no concílio niceano, identificando o movimento inicial de seguidores de Jesus de Nazaret, à maneira em que a propósito era considerado pelo Islão inicial, apenas como uma escola de iniciação filosófica –tal e como isso era entendido no Mediterrâneo do momento- e carente de qualquer intenção dogmática e cultual. Um movimento inicial, que confessava Jesus como seu guia, senhor, Rabbi, mas nunca como um deus ao estilo greco-romano nem como uma hipóstase do Real Absoluto, já que como bons filhos do monoteísta Abraão uma identificação ôntica, única e última, entre um humano e o Ser seria inconcebível. Isto sem prejuízo de todas as veleidades politeístas e henoteístas* que marcam a história bíblica. René Guénon acrescentava que o cristianismo original toma a decisão de abandonar a sua hermética delineação inicial, que envolvia dificuldades notáveis para ser aceito no seu caminho iniciático –e gostaria de que isto fique longe de interpretações esotéricas ad usum. Mas era esse, precisamente, o título inicial do grupo: a Gente do Caminho –como são chamadas ainda hoje sem excepção as diversas escolas iluministas de Oriente- antes de ser denominado pela primeira vez na cidade de Antióquia com o nome de Cristãos, que significa messiânicos, nome que recebem até hoje nos países islâmicos (masihi). Mas dizia Guénon que a Gente do Caminho abandona a sua intenção, pelo menos em parte, por que? Com a reorientada, sugere, intenção de ser a nova base civilizacional para um Império em descomposição. E, segundo René Guénon, conseguiu na altura aquilo que pretendia.
Bom Natal.
*Henoteísmo: em rápida definição, espécie de politeísmo em que um deus, habitualmente associado com determinado povo, deve ser adorado com exclusão dos demais.
chuzame - Mar
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PEDRO CASTELEIRO. Coruña, 1968.Inmediatamente se nos mostra o carácter visionario destes poemas, perceptivo se se quixer, como primeira fase que visa desembocar nunha vontade gnóstica. Partindo dunha grande atención aos sucesos do mundo, ao decorrer da vida, téntase unha manobra posterior de interpretación. Procúrase, a partir da experiencia sentimental, a hermenéutica da existencia. Sen embargo, o resultado desta busca de sentido só pode ficar plasmado poeticamente, do mesmo modo que os grandes misterios só poden ser expresados através do paradoxo.
O ritmo dos versos compatibilízase habilmente coa inserción das imaxes poéticas, ora rematado na liña ora mostrando un uso eficaz do encabalgamento. Canto ao imaxinario, preséntase unha metafísica do amor e da existencia, con certeza complementares, en que as realidades se atravesan de modo a conformar a malla do que existe. A postura que o poeta propón é clara: debemos procurar o noso lugar, descubrir o noso destino, xa que a «nossa vida se consume e nos exige a suprema atenção e a intenção suprema».Do libro colectivo Sete poetasp. 31
Voar contigo coroada de blasfémia
sob a Lua pálida dos dias de metal
Babilónia, amarás as tragédias que te medren
na pele. Um odor que golpeia deterá tua mão
Mais do que o céu cobriço meu fastio cresce
face as regiões onduladas além das impotências
Humana é a dor e o cravo que ma causa
e eu sou um anjo que se esmigalha
Uno que há-de reinar na múltipla condena
irremissivelmente cair sobre mim mesmo dentro
Assentado na espiral que me povoa
p. 32
Escuita o sotaque do tempo,
o tempo
é estrangeiro.
O boato dos corpos que
ultrapassa,
a pele do tempo
O tempo não tem carne nem
o tempo tem ossos, apenas o tempo tem a pele
em que envolve o silêncio
gris
dos dedos que trespassa.
O tempo é estrangeiro.
É o estrangeiro que me habita.
Entra por mim dentro
e me reduz
ao minuto em que me escrevo
Me conduz
me confronta de noite com a estrada e a chuva
Me retorce as mãos com a fúria do silêncio
Perpassa-me o corpo e me procura.
De O círculo escarlate
p. 6
Os meninos riem na rua dos sonhos
sou eu quem tem a bandeira
em que estão pintados seus risos.
Há unha música de marés e prantos
mas unha música alegre. Vem com comidas
de gordas mulheres negras, mulheres apartadas
ardendo.
p. 21
Surgem as cousas de haver tanto silêncio.
Para escrever este poema tivem que abrir
as portas mágicas do álcool corporal,
entrárom os dias à maneira de música.
Eu não sei quem sou por isso bebo.
A fúria polos caminhos da espada e o Sol.
A noite aberta livre liberta
sob tantas bocas murchas sob
as igrejas da gorja.
p. 23
Decorrer as horas pola forma
especial de cada corpo. Atravessar
um oceano de dias numa barca
saudosa. Onde o amor, onde a aventura
impossível do naufrágio?
Lá onde a beleza infinita do suicídio
declina polas ladeiras
da alma.
p. 27
Houvo um tempo em que podíamos obter
a criatividade usando um saca-rolhas.
Era o tempo em que guardávamos os rebanhos.
E agora eu sozinho talvez
sem povo
enfrento a tarefa de começar
de novo a existir.
Persistir, ao longo dunha certa tristeza
que há muito tempo venho ignorando: unha tristeza
que não emana de mim mas que me banha.
Não permaneçamos mais tempo dentro dos círculos
porque são o território em que morremos
definitivamente. Cruzemos os campos
atestados de flores, concederemos as licenças
de entrar em qualquer vício
e abandoná-lo logo, á medida em que a
nossa vida se consume
e nos exige a suprema atenção
e a intenção suprema.
Penetremos onde as pirâmides invertidas, provemos
o sabor do lume nos ásperos lábios, cantemos
com um suave licor deslizando-nos das bocas. As horas
são próximas, a grande ama escura se impacienta,
é o momento de comer escaravelhos
e esmeraldas. Subir ao monte Tabor
e aguardar o dilúvio. Consumir-se
negramente, entre o verdume das águas
e as árvores dispersas.
chuzame -




